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Ópera dos mortos

…quando a alma se desprende? A gente deixa sempre presença no mundo, nos outros. É o que fica, o resto evapora. (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

A única certeza que temos, dizem, é que morreremos. Duvido um pouco desta certeza, visto que nunca morri e não posso garantir que todas as pessoas que estão vivas morrerão. Porém, se a lógica continuar a mesma, é bem provável que isto aconteça. Sei que todos os homens que ergueram os principais prédios das cidades pelas quais passei já morreram e eu, que tento reerguê-los em palavras, provavelmente, morrerei, é triste, mas é o que especulam. E ficará a graça destas frases vãs até que já não restem olhos para lê-las, como ficaram as lápides nos cemitérios históricos. E tantos já morreram, que já não sabemos mais onde ocultar os corpos: há corpos pelo chão das igrejas, pelos jardins e amanhã haverá corpos nas paredes, nos tetos e no ar que respiramos. E, todo ar que respiramos já não está repleto dos que se foram? Há tempos já não podemos viver sem passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

A Igreja da Matriz de Santo Antônio guarda ao seu lado um cemitério

Eles, os mortos

Eu - eles, amanhã

O mais caro de se morar em Bs. As.

Muito provavelmente um dos lugares mais caros pra se morar em Buenos Aires é a Recoleta. O bairro é antigo, revitalizado, seguro e repleto de turistas. Arrisco dizer, então, que o lugar mais caro da Recoleta é o Cemitério (ou seja, é o caro do caro). Já não há mais espaço para se cair morto por lá. Quem quiser uma tumba, tem que ser de segunda-mão, já usada por outro famoso e pomposo cadáver. Em uma busca no Google, achei um site dizendo que as tumbas mais simplórias de lá custam por volta de 17 mil dólares. Ora, quiçá um bom investimento, afinal, será seu lar por toda a morte. As outras tumbas maiores (imensas pra dizer a verdade), são caríssimas demais para o seu esqueleto e, lhe adianto, não valem a pena, afinal a Evita mora num quadradinho e, mesmo assim, continuará chamando muito mais a atenção que você.

Alerto: levar a eternidade na Recoleta não deve ser muito fácil. É como virar um animal no zoológico: os visitantes são barulhentos, tiram fotos, sobem nas tumbas… Aliás, o cemitério da Recoleta é o único que conheço que possui mais turistas que defuntos (veja como prova o vídeo abaixo).

Bom, bom leitor e leitor bom, está aí a indicação post-mortem. Quanto a mim, gastarei meu breve dinheiro em vida e cairei morto aqui pelo Jardim da Saudade mesmo. É muito mais tranqüilo e fica ao lado da minha casa. Duro vai ser aturar a Cássia Eller cantando nas madrugadas.

Antunes
Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2010

Um casal buscando onde morar

Experimentando uma casa pequena

Experimentando uma casa grande.

Bioy Casares é parte da vizinhança

O badalado quadradinho de Evita e de seus familiares

Vídeo dos turistas visitando o túmulo da Evita e parentada