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Crônica falada 2: Medo de avião

Quiçá, leitor, o medo de avião seja um dos temas mais recorrentes neste blog. Entonces, antes de começar a falar da Colômbia, viagem em que mais fiquei dentro de um monstro alado, falo de tal medo, revelo minha relação obtusa com o filho de Santos Dumont e critico nosso pior complexo: o Complexo de Ícaro!

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Antunes
Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2011

PREDADORA

GARRAS IMENSAS SUJAS DE TERRA QUE FURAM A CARNE. BICO CURVADO ENCRAVADO NA CARNE. OS OLHOS GIGANTES, CERRADOS, VÊEM PRA TODOS OS LADOS, PREGADOS NA CARNE. A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A CORUJA SAI! GIGANTE. PERVERSA. SANGUINÁRIA…. do ponto de vista do camaleão, é claro, pois a coruja sempre foi a corujinha, que peninha, encolhidinha, como dizia o poeta meu xará.  MAS AGORA ELA QUER MUDANÇA. FOI A ITABIRA CAÇAR A CARNE DO CAMALEÃO, FOI VIVER FRENTE À ESTÁTUA DOUTRO POETA, FOI SUJAR AS UNHAS DE TERRA E SANGUE. ESTÁ FAZENDO BARBARIDADES, SE EXIBINDO PRO DRUMMOND, TUDO PRA QUE ELE ESCREVA UM POEMA PRA REABILITÁ-LA.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2011


A coruja que filmei no Parque do Intelecto em Itabira – MG.







A Mariana

Mariana vista da Igreja de São Pedro dos Clérigos

No canto matinal, sobre a treva do vale.”
(Carlos Drummond de Andrade, Evocação Mariana)

Ah, leitor, se você tivesse um pingo de decência e vergonha na cara pararia de ler este blog, pois falo de igrejas e todas são iguais. Falo de verdadeiras cidades-igrejas, cidades que aparentemente possuem mais templos que casas. Não pretendo inovações, não pretendo uma sequer. Não fiz nada de diferente até agora e cheguei a pensar em copiar e colar o mesmo texto à guisa de alegoria que expresse as cidades históricas de Minas Gerais. Entretanto, contrariei-me e às minhas pretensões, pois fui a Mariana, única cidade histórica, das que visitei, com nome de mulher. Ah, Mariana! Feminina Mariana. Espero que teus anjos tenham sexo e que seja feminino: anjinhas… Mariana da Estação de Trem rodeada de casinhas feias e pobres, das igrejas no alto dos morros, das praças, do pelourinho, do sino que toca nas almas, da Mariana, mocinha que anda pela cidade cheia de si, acha que vive numa apologia.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010


Leitura de Evocação Mariana de Carlos Drummond de Andrade

A morte como ponto turístico

Todas estas são prendas
dos mortos do Carmo
.”
(Drummond, Carmo)

É claro que os homens que construíram tantas igrejas imaginavam algo que ia além da imaginação de sua época. Claro que Aleijadinho caprichou nas esculturas barrocas para que elas pudessem sair bem nas fotos dos turistas do Século XXI. Afinal, as igrejas barrocas já nasceram mais para ser cultuadas do que pra ser local de culto. O que não imaginavam estes homens é que sua morte poderia ultrapassar a fama duma igreja. Aconteceu no Carmo, o cemitério pede atenção e as tumbas fazem pose para os turistas. Aconteceu no Carmo: um poeta resolveu preferir os cadáveres aos fiéis. Homens de outrora agora são o cinza dos epitáfios que comprazem os visitantes, prenda da morte e do tempo, prenda dos que morreram apenas para compor o cenário duma foto.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2010


Poema Carmo de Carlos Drummond de Andrade lido po mim em Ouro Preto

Toffolo: um hotel ficcional

Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia
.”
(Drummond, Hotel Toffolo)

Tudo no coração é ceia e imagino, ao redor deste banquete-coração, poetas como Drummond, Bandeira, Vinícius de Moraes e Oswald de Andrade. Era assim no hotel Toffolo. Hoje em dia, passamos diante dele e vemos senhores petiscando e cervejando. Não fosse a placa que está à parede, sequer imaginaríamos que ali estiveram aqueles senhores tão cheios de letras que tornavam o feijão e o arroz secundário à mesa. Não fosse nossa ignorância, até hoje veríamos senhores como aqueles, mas não conseguimos saber quem são aqueles velhos barrigudos que hoje sentam ao Toffolo, pois já não são famosos os poetas, são famosos apenas os atores das novelas – que bom pra eles. Fui ao Hotel Toffolo, tomei o cardápio e vi quão caro os versos de Drummond deixaram qualquer cerveja. Não tivesse escrito, eu poderia lá sentar. Não tivesse escrito, eu não quereria lá sentar. Não fiquei, fui às ruas buscar lugar mais barato, pois o Toffolo já pertence mais à ficção do que à realidade.


Leitura do poema Hotel Toffolo in loco

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010

Mercês da prostituta

Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima / Dádiva de corpo na tarde cristã/ Anjos caídos da portada e nenhum Aleijadinho para recolhê-los.”
(Drummond, Mercês de Cima)

São tantas as igrejas em Ouro Preto que, confesso leitor, começo a ficar entediado de vê-las e de escrevê-las. São chatas as igrejas, são muito chatas. Se fossem boas, não precisariam pregar Cristo na cruz pra que ele ficasse lá dentro. Drummond diz que os anjos caíram da portada, creio que caíram de sono diante de alguma missa. O Aleijadinho, também, deveria estar a tirar alguma pestana, pois não apareceu. Fiquei a me interrogar por que raios chamam a Igreja de Mercês de Cima e descobri que por motivo óbvio, pois há uma Mercês de Baixo… são monótonas as igrejas. Depois de se passar por cinco delas já não se sabe qual é a mais bonita, a mais rica, a mais fúnebre… Já não saberia qual é Mercês de Cima e qual é a Mercês de Baixo, não fosse a prostituta que está diante dela, como diz Drummond. E quem é esta meretriz que vemos senão a própria Ouro Preto, deitada, arreganhada diante de nossos olhos a dar-se outrora para os portugueses e agora a vender-se aos turistas?

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010


Nôla filma a Mercês de Cima


Eu leio o poema Mercês de Cima de Drummond, diante da própria Mercês

Diante da Mercês de Cima

Sentado à beira da Mercês de Cima, atrás está Ouro Preto

Placa explicativa da Mercês de Cima

Um de frente proutro: Museu da Ciência e Técnica e Museu da Inconfidência

Toda história é remorso
(Carlos Drummond de Andrade, Museu da Inconfidência)

Se toda a história é remorso, como diz Drummond, o que são os museus, um pote até aqui de mágoas? E muitos são os arrependimentos de Ouro Preto: a escravidão, a repressão aos inconfidentes, a censura…O que são dois museus, então, um de frente proutro? Dois baldes de remorsos que se entreolham? E o que são vários museus, incontáveis igrejas, minas, sobrados… o que é Ouro Preto senão uma interminável lamentação? E o que é este texto senão um lamento sobre o lamento, um chover sobre o molhado?

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 2010


Visão geral da Praça Tiradentes, Centro de Ouro Preto.


Museu da Inconfidência, poema de Carlos Drummond de Andrade, lido por mim, Vinícius Antunes

Museu da Inconfidência de frente para o Museu da Ciência e Técnica

Museu da Ciência e Técnica de frente para o Museu da Inconfidência