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Crônica Falada 13 – Fortaleza

Fui a Fortaleza, porém, impedido de fazer um vídeo na praia, acabei fazendo esta tosca autofilmagem no quarto de hotel. Aproveitei o ensejo para fazer uma campanha em prol dos Jegues e da não-violência.

Antunes

Praia do Futuro

Saí de Meireles, caminhei rumo a Iracema, voltei a Meireles, passei por Mucuripe, tentei ancorar na Praia do Futuro que me instigou por seu nome. Como os navegantes portugueses, eu queria dobrar a quina do cais do porto para rebatizar a praia. Deixaria de ser Praia do Futuro para ser pra Praia do Presente e seria meu presente ancorar por lá como O Cabo das Tormentas foi o presente de Vasco da Gama.

O mar medieval intransponível: a orla de fortaleza. O navegante: eu. Os monstros marinhos: infinitos perigos por aquela orla que eu conhecia só de ouvir falar. Piratas, piratas e piratas: jamais se extinguiram do mundo, jamais se extinguirão.

Em Fortaleza, não só o dinheiro premia com a vista pro mar, a pobreza também. A favela atrás dos luxuosos hotéis, eu atrás do perigo.

Praia do Futuro: o que quis nos dizer quem cunhou seu nome? O futuro é a pobreza, a violência, o perigo, a favelização, a desigualdade escrachada, o medo, o terror, o pânico?  O futuro somos nós. O futuro não somos nós.

– Ei… ei… ei… – incansavelmente vozes me interrompiam por Fortaleza.

Tenho a mesma curiosidade que a esposa de Ló. Olhei. Desta vez não era perigo. Era um segurança de hotel.

– Senhor, não venha para estes lados. Vão assaltá-lo se continuar aqui.

Fiz-me de desentendido, como se não fosse o milésimo aviso. Como eu iria explicar-lhe que eu precisava escrever e fotografar pro meu blog?

– Senhor – insistiu – vá para o seu hotel.

Desta vez, atendi ao toque de recolher. Missão abortada. Não atingi a Boa Esperança, nesta história, restaram-me as tormentas, coube-me ser Bartolomeu Dias.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de junho de 2011

Um menino na orla de Fortaleza

Na falta de quem me fotografe as autofotos são sempre bem-vindas

Barracas de Peixe em Direção à Praia do Futuro

Brincando de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, tento vencer o Cabo das Tormentas

Há favela de frente pro mar

É proibido usar capacete!

Creia, leitor. Creia porque a lógica é esta. Em Ourilândia é proibido usar capacete. Não que haja leis escritas, mas afinal de que servem as leis escritas se as que valem são orais? O meio de transporte mais comum aqui é a moto. Dos meios de vida, garantiram-me: um dos mais comuns é o roubo. E não fizeram a boa combinação dos meios: moto+roubo? Só duas estirpes de pessoas usam capacete por aqui, falou-me um aluno que está na cidade desde antes de sua emancipação: ou são funcionários da Vale ou são ladrões. Os funcionários da Vale usam capacete por medidas de segurança incentivadas pela empresa; os ladrões usam pra esconder a cara qual máscara. Daí vem a lenda de Jack Cabeça, dos mais misteriosos bandidos da região.

Dizem que ninguém nunca viu a cara do Jack Cabeça e que sua referência é o fato de mandar fazer seus capacetes sob medida, tamanha cabeça tem o moço. Jack Cabeça é/era (não se sabe seu paradeiro) assaltante cruel, matava e só depois mandava levantar as mãos. Inicialmente assaltava em dupla, com seu companheiro de garupa, Jacinto das Morte. Mas se desentenderam e o próprio Jack Cabeça o matou. Dizem que o diálogo foi rápido e rasteiro:

– Jack, quero saber se cê vai me pagá aquele dinheiro que tá me deveno.

– Já disse: vô! Num me aperreie mais!

– Tô precisano do dinheiro, Jack. Quero só vê se vai me pagá hoje!

– Tá me chamano de mentiroso!

– Tô não, Jack!

-Eu afirmei, num apergutei! E agora tá dizeno que eu tô mentino porque eu disse que cê disse que eu tava mentino!

Depois cantou o revólver de Jack. Era o fim de Jacinto das Morte.

A abordagem policial, por conta dos ladrões de capacete, é sempre a mesma. Param os motoqueiros que seguem as leis nacionais e mandam que cumpram as leis regionais:

– Ei, ô da moto. Encoste!

– Que foi, seu moço poliça?

– Tire o capacete!

– Tem cara de ladrão esse, Jailto?

– Tem não, Creisso.

– Tá liberado, então. Mas, num volte a colocá capacete que isso é coisa de bandido.

Tive o (des)prazer de ouvir como funciona o método de roubo de Jack Cabeça. Dizem que em seu último assalto parou a moto diante da mulher da barraca de bijuterias. A senhora, já trêmula e quase se urinando, só conseguiu perguntar:

– O sinhô de capacete é bandido, né?

E Jack Cabeça, irônico a respondeu:

– Sou não, sou funcionário da Vale.

A pobre, coitada, num breve alívio respondeu:

– Então o que o sinhô deseja?

– Vim só garimpar teu ouro! – Disse o Jack e deu uma risada estrondosa abafada pelo capacete.

Antunes

Terra dos Sem Capacete, 25 de março de 2010

Parauapebas, cidade de aventureiro

Foi um taxista quem cunhou a expressão do título: Parauapebas, cidade de aventureiro! Isso dizem outros, não eu. Dizem que Parauapebas é feita por uns fugidos que vem do Maranhão pelas linhas do trem e perduram pelas linhas do tempo. Não sei da veracidade das informações. O que sei é que na segunda-feira, 21 de setembro, mataram um sujeito com seis tiros na cara no ponto de ônibus. É vingança, a droga do lugar. E quando se fala em violência, por associação, falam Rio de Janeiro. Todos temem o Rio. E quando me apresentava como carioca, a polifonia das vozes se repartia em perguntas e exclamações: como você vive no meio das balas perdidas? a Linha Amarela é aquilo mesmo? nossa virgi! ai, meu Deus, é do Rio, deixa eu esconder minha carteira! E num dia, resolvi inventar uma explicação mui parcial para o caso: Pessoal, não é que o Rio seja assim por demais violento, a coisa é que pra não ter migração de nortista e nordestino pra lá inventam estas histórias pra assustar vocês. E criando esta história sobre outra história, frágil como castelo de cartas, todos arregalaram os olhos, pois o castelo de cartas é frágil, mas impressiona pela sua habilidade de construção.

Com 152 mil habitantes, Parauapebas é uma cidade escura, cortada por uma estrada envolta por floresta. Dizem que nas suas esquinas, sob a penumbra, habitam assaltantes à faca e a canivete descendente de indígenas empobrecidos. Há foliões fora de época, ou melhor, há épocas por fora de foliões que trazem consigo o calor das noites vividas nas zonas de baixo meretrício da Pirâmide e da Rocinha. Há quiosques e supermercados em quantidade que jamais vi, há pássaros negros como pequenos urubus que estão nas árvores, mais que folhas. Um deles, de vôo curto, acompanhou-me pelas caminhadas como se fosse delatar-me a alguém: é o anu-preto. Mata-se em Paraupebas, mas o anu rejeita a carne, mata-se por qualquer cinqüenta centavos e a lei sai das mãos de qualquer um, a vingança é a lei. Vingar-se é um direito que cabe ao homem. Pois vinguei-me, baseado nas leis das bocas do lugar: menti-lhes. Menti-lhes que nossa violência é mentira, vinguei-me.

Antunes

Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2009

 

A Câmara Municipal de Parauapebas

A Câmara Municipal de Parauapebas

O começo da estrada que leva à floresta

O começo da estrada que leva à floresta

Cachorro brinca com as flores da árvore

Cachorro brinca com as flores da árvore

Anu pousado na árvore

Anu pousado na árvore