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Gol contra

Chovia. Ou melhor, choveu durante toda a semana. Minto. Não choveu durante toda a semana, pois sábado de manhã no casamento da Jaque não choveu, pelo contrário, fez sol pacas. Dizem que ela gastou ambos os joelhos orando pra fazer sol porque o casamento era a céu aberto. Eu também gastei os meus, mas que posso fazer se Deus prefere os casamentos aos vôos?

Entre chuvas, a Gol preparou-me uma surpresinha: terceirizou o vôo. É, baratíssimos leitores, se não bastasse terceirizarmos faxina, telefonia, segurança, agora terceirizamos o ato do vôo. A responsável por me levar a Vitória foi uma tal de Flex linhas aéreas (nunca ouvira falar). Metaforizarei: imaginem se a águia resolve terceirizar seu vôo a uma galinha. Pronto, foi isso.

Como todos os leitores sabem, fiz um MBA em Aeroportuária¹ e uma das brilhantes teses a que cheguei foi: “Todas as aeromoças são bonitas, inclusive as feias.” Toda regra possui uma exceção ou minha tese foi por água abaixo? As aeromoças da Flex são tiazonas encalhadas que por não terem o que fazer resolveram viajar por aí a bordo de aviões. As janelas da Flex possuem as borrachas arrancadas, as poltronas são frouxas sem apoio pra cabeça, o ar-condicionado não é individual, o avião faz um barulho de cigarra durante o vôo, treme pra caraca e, pasme, humilde leitor, pasme comigo: nem bilíngüe os anúncios são. Rola um português meio capenga, picotado e pronto. Ok, ok, falar-me-á o leitor: pra quem viajou na Passamedo², a Flex é luxo. É, leitor, mas com a Passamedo eu fui pra São José do Rio Preto e com a Flex eu fui pra Vitória, Capital do Espírito Santo, o terceiro da trindade de um Deus uno, ou seja, o primeiro da trindade também.

Mas, o importante leitor, cito Shakira: estoy aqui e, apesar da Gol contra, cheguei a Vitória.

1 – Ver a crônica MBA em Aeroportuária, clique aqui.

2 – Ver a crônica Quando os pilotos tomam guaraná, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009

Flex: pra quem só acredita vendo!

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião (BH)

Começo citando, pois este texto não sobreviveria sem isto:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

Lembrei-me desta fala de Borges em dois textos, neste que você lê agora e no próximo que publicarei aqui e começarei exatamente da mesma maneira. Este se deve ao número do vôo em que eu embarquei: 1747, repito por extenso: mil setecentos e quarenta e sete, ou, como habitual, um sete quatro sete. Logo, pensei: ferrou! O número é trágico, não me soou bem, trouxe-me memórias estranhas. Então, seguindo a lógica de Borges, previ: CAIRÁ! Pensei isto exatamente para que não caísse, pois como todas as previsões são falsas, o Universo, Deus, o Destino, me contrariariam e manteriam o avião no ar.

Vinham à cabeça combinações exóticas como as que a Rede Globo faz para que todos os números relacionados ao Zagalo dêem treze. Por exemplo: vôo 1747. 7+7=14-1=13+4=17-4(quantidade de algarismos presentes no número do vôo)=13. Ou seja, o resultado final das contas são sempre manipulados para acabarem num número macabro. Macabro no meu ponto de vista, pois não é a mesma coisa para o PT e para o Zagalo (a Globo nunca perguntou pro Zagalo em que número ele vota, o PT bem que poderia usá-lo como “”””garoto”””” propaganda).

Agora, explico os dois principais fatores que me assustavam além-13:

1747 possui como três primeiros números os mesmos do ônibus que foi seqüestrado no Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 2000 e resultou em morte.

1747 é um número que nos remete imediatamente ao avião da Air France que caiu neste ano: 474.

Por fim, digo que minhas previsões foram muito úteis e que Borges estava certo, justamente por ser óbvio que cairia, o avião não caiu. 1747 continua sendo um vôo noturno que vai de BH ao Rio e que me trouxe de volta, tranqüilo…

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2009.