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rio de janeiro a janeiro 2 – a cidade conhecida

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Aqui está disponível o segundo livro virtual do blog Crônicas dumas Viagens com 10 contos de Vinícius Antunes ilustrados por Rogerio. Abaixo, seguem os textos disponíveis no livreto virtual.

  1. O suicida do Cristo
  2. A 5ª obra
  3. A mãe do árbitro
  4. O gari da Sapucaí
  5. Conversas com Drummond
  6. O espírito da Lapa
  7. O passador de cantadas
  8. Narciso
  9. O jardim dos sentidos
  10. História Real

A distribuição deste material é inteiramente gratuita, sendo apenas solicitado a menção dos nomes de seus autores. Agradeço, desde já, a divulgação.

Obrigado,

Vinícius Antunes da Silva

História Real

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Outrora a Quinta da Boa-Vista era a morada dos nobres. Hoje, durante a noite, até o mais vulgar dos homens teme passar por lá. Do lado de fora, legiões de travestis, prostitutas e mendigos dividem a calçada. Dentro, a escuridão predomina no parque e rodeia o antigo palácio real. Ouvem-se uivos dos animais do Zoológico e sons macabros vindos do presídio Evaristo de Moraes.

Às portas do museu, suando como fosse dia, montavam guarda Marcelo e Bernardo:

– Já pedi a troca de turno, Bernardo.

– Tá com medo daquela coisa?

– Tenho dois filhos, sei lá o que pode acontecer.

– Olha, lá vem ela de novo.

– Parece o fantasma do rei.

– Que rei?

– O tal do Dom Pedro que morou aqui. Nunca viu num livro de história?

– Então fale com ele,  já que tem tanta intimidade.

– Quem está aí? Pare agora mesmo! Identifique-se.

– Sumiu.

– É sempre assim.

A história começou a correr. Primeiro entre a administração do museu, depois entre os funcionários da Quinta da Boa Vista, em breve era a história mais comentada em cada bar de esquina de São Cristóvão. Chegaram até a comunicar dona Isabel Maria Josefa Henriqueta Francisca Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach, ou seja, a atual sucessora de Dom Pedro I. Entretanto, ela disse não querer saber de espiritismo e que não daria dinheiro nenhum a ninguém.

Marcelo não conseguiu a troca de turno. Bernardo sequer tentou. A princípio, foram noites difíceis. O fantasma do imperador passou a fazer visitas cada vez mais freqüentes. Chegou-se a pensar que alguma coisa ruim deixava sua alma inquieta, que chegava o fim do mundo, que trazia algum aviso importante ou, até mesmo, que queria vingar-se como algum rei dinamarquês. Marcelo e Bernardo acompanhavam todas as noites a movimentação do fantasma de Dom Pedro I. Surgia ao lado da estátua de seu filho, depois sumia. Reaparecia carregando em seus braços alguma prostituta, depois sumia. Os guardas pensaram que o imperador voltava ao mundo para buscar almas femininas, mas não. Quando saía o sol, buscavam ao redor do palácio e não encontravam corpo algum. O passar do tempo trouxe o costume e a coragem. Numa noite de lua graúda, Marcelo e Bernardo seguiram o espírito que carregava em seus braços mais uma dessas mulheres da vida. Caminharam a passos silenciosos até o matagal de trás do museu e, ao chegar lá, viram aquela cena sobrenatural: Dom Pedro nu a amar a prostituta. Depois do evento revelador, Dom Pedro passou a tratar os guardas como se fossem seus súditos mais leais. Jogavam cartas quando Pedro se desentendia com as mulheres e ele lhes contou que não voltava a este mundo por dor, vingança ou ódio. Voltava apenas porque se cansara da morte e lhes disse que não conseguia levar a eternidade sem amar as mulheres.

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2011

Crônica Falada 12: Quinta da Boa Vista

Voltei à Quinta de Minha Infância para esta Crônica Falada. E, talvez, só eu no Rio de Janeiro goste verdadeiramente de lá. Recordei o saudoso macaco Tião e revelei segredos irreveláveis da antiga morada da Família Real.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de maio de 2011

Tanque

Texto de Ramon Ramos e ilustração de Cristiano Pessoa – PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 
uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral de Melo Neto 

Nico fugiu da turma. Já tinha se irritado com aquela excursão, cheia de oba-oba. A professora se achava uma zoóloga, cheia de pose. Só não sabia que era zoada pelas costas. Pela frente também, nem fazia cara feia. Todo mundo queria ver mamíferos, Nico nunca entendeu essa tara por leite. Mania de leões, tigres, elefantes. Então, se escondeu atrás de um muro e deixou a galera ir. Quando levantou, viu o lago que parecia vazio. Mas não era. Teve de apertar os olhos e notar, como quem procura palito no agulheiro, quais bichos estavam ali. Jacarés. Difícil encontrar, nem se mexem. São uns preguiçosos sedentários. A maioria deve ter problema cardíaco, pensou Nico. Ser personal trainer de jacaré deve ser pior que tirar leite de pedra. Se bem que eles são meio pedregosos, casco duro, alma de ferro. Jacarés são místicos, pensava Nico. Uma cara de passado, época de dinossauros. E ainda ficam aqui, sendo atuais. Devem ter feito trato com o Demo. Pela imortalidade. Por isso não envelhecem: armaduram-se de pedra. Uma gritaria perto da barraca de sorvete anuncia: “garoto se perde de excursão”. E agora? Nico não quer se encontrado. É tão difícil entender? Olhou para dentro do tanque, pulou. Acho que ninguém viu. Não teve correria, movimentos bruscos, desespero. Só paz. Nico sentia-se apossado de aceitação. Queria ficar mais leve que o mundo. Podia. Chega de ser levado pela maré! Ficou deitado, olhando em volta. De barriga para baixo, roçando o chão de terra e mato. Jacarés são bichos muito tediosos. Nico discordava: achava-os feitos de tarde. Tarde mineira, tarde de interior puxando o “r”. Tarde depois do almoço, barriga cheia e lombeira tomando conta do corpo sobre a rede. Tardinha de temperatura amena, com brisa leve espalhando o canto das cigarras. Trem bão ser jacaré! Será que todos são do interior? Enfim, Nico deixou essas questões de lado. Estava sentindo um frio. Estranho isso. Saiu da sombra e o corpo ficou quente. Frio. Quente. Quente. Frio. Parecia jogo de vivo ou morto. Nunca fui feito de termômetro, troço esquisito. Viu então o jacaré de boca aberta. À espera. Quando surge um passarinho de blush e pernas finas a lhe palitar os dentes. Nico quase riu. É um passalito! – enquanto segurava o riso. Será que o jacaré deixa a sua mulher usar fio dental? Acho que não. Vai que ela vira piriguete, mocreia, crocodelícia? Se resolver dançar funk, então, será expulsa da comunidade! Danada! Mas não pareciam se irritar os jacarés. Sentia serenidade vindo daquele chão, tranquilíssimo até que dormiu. Braços feito travesseiro, deitado atrás de um tronco. Nico não vestia cinza. Nem camisa verde. Agora, sonhava. No sonho, via de fora. Plateia assistindo ao show, ao filme, aos movimentos prévios passarem aos poucos. Era a sua vida. Sua história. Pai, mãe, vó, irmãos, amigos e tudo o mais. Brincadeiras e tristezas lado a lado, misturadas no bolo fecal do passado. Ia largando pra trás. Nico não foi feito pra isso, pra vida comum. Custa aceitar? Agora, ele se vê por si mesmo, na última despedida, sem choro nem irritação. Tinha um sorriso meio estranho, meio torto. Ninguém entendia. Nico os segurava na lembrança: pipa contra ventania. Dava linha para não arrebentar. Até que ficou distante demais. Perdeu de vista. Esqueceu e acordou. Estava pelado. Nu sobre a terra, não se mexia. Olhava de um lado para o outro, jacarés acompanhavam aquela paz. Seu coração batia de menos, sem pressa pra vida. Não sentia saudades. Pessoas raras apareciam para ver o tanque. Mas não reparavam. Nico, à espreita, gargalhava mudo, sentinela, imóvel. Não se tornou um jacaré mas estava entre os seus. Foi mais à frente. Condensou a vida e a fez mineral. Tinha a matéria rochosa dos jacarés. Não era um. Virou pedra. Nesse mundo de batidas rápidas e gritarias, me deixem ser jazz. Largou o resto, virou sólido, vida real. Nico sempre quis ser poço em vez de mar. Palavra estancada, sucinta, lacrada. Pedra. Depois de um tempo, as pessoas até reparavam nele dentro do tanque. Viam algo diferente. Sorriam com os olhos, nada diziam.

Não precisam perguntar para entender. Meu silêncio é poliglota.

Texto de Ramon Ramos
Ilustração de Cristiano Pessoa da Cruz
Rio de janeiro, 7 de março de 2011

A Quinta de Minha Infância

É bem difícil achar quem diga isto, mas eu digo: a Quinta da Boa Vista é um dos meus lugares favoritos no Rio de Janeiro. Não porque seja realmente melhor do que outros, mas porque me remete à infância e nossa infância é sempre a melhor infância, os lugares de nossa infância são sempre os melhores lugares, as estórias de nossa infância são sempre as melhores estórias.

Recentemente, me surpreendi ao ver o desenho Rio: lá estava a Quinta. Dentre Corcovado, Pão de Açúcar, Sambódromo, Lapa, acharam-lhe um lugar.  Quando a vi, já não via mais o desenho Rio, via o desenho de mim mesmo que passava em minha memória. Vi as curtas manhãs de sol em que meu pai me levava para correr no gramado da Quinta; vi os macaquinhos de brinquedo, patos de madeira, bolas gigantes que os vendedores vendiam na Quinta; vi os cachorros-quentes quase frios; vi cada jaula de animal; vi cada peça do museu e vi as letras dos créditos do filme que subiram ao acender das luzes do cinema.

Foi na Quinta que meu pai me ensinou a viver outras épocas: “quando ouço o ranger do piso de tábua corrida, imagino Dom Pedro andando por este palácio com aquelas roupas pesadas e sem tomar banho.” Talvez por isto eu nunca tenha gostado de tomar banho, para parecer o imponente imperador que andava pelas manhãs de minha infância, o imperador João Felpudo como me rebatizaram meus pais. E assim imaginei Dom João comendo suas coxas de galinha com as mãos em uma imensa mesa de jantar; imaginei Dom Pedro I a rolar com as escravas pela grama; imaginei Dom Pedro II a chorar escondido porque não queria ser rei de lugar algum que não fosse seu próprio quarto.

Visitei incontáveis vezes o zoológico e ainda o visito pelo menos uma vez ao ano. Sei a ordem das jaulas de cor e para o fastio e treino de minha esposa, vou puxando-a pela mão como fará o filho que teremos um dia. Falo sobre cada animal, leio pela milésima vez cada plaquinha e explico o tamanho da língua das girafas; explico qual a diferença entre um camelo e um dromedário; explico porque o condor me parece um animal tão assustador; explico quais são os micos, os chimpanzés, os babuínos, os orangotangos; e ainda explico que os tigres têm listras e as onças pintinhas.

Volto à Quinta da Boa Vista, algumas vezes como turista, para tirar as mesmas fotos nos mesmos lugares e ainda assim ser totalmente diferente. Volto à Quinta da Boa Vista como mero passante, igual fiz durante meses de minha vida quando saía do trabalho e ia a pé para a faculdade, só para ter que cortá-la por inteiro. Volto à Quinta da Boa Vista constantemente em minha memória; volto à Quinta da Boa Vista toda noite quando durmo: é um lugar infantil, sem violência, sem prostituição e já não há mais Quinta da Boa Vista possível para mim que não seja a Quinta da Boa Vista da voz de meu pai, da loucura de minha memória, das fotos com meus primos, da miniatura de minha irmã, das mãos dadas de minha esposa, do que sou.

Antunes
No avião, saindo do Rio, indo a Fortaleza, 24 de abril de 2011.

Eu com o Macaco Tião, um clássico e uma foto de pôr inveja em qualquer um.

Minha irmã, eu e a bunda do elefante

Com a família imperial diante do palácio da Quinta

Andando pela Quinta da Boa Vista

Uma foto clássica na minha vida, diante do São Francisco do Zoológico (com minha irmã e meu primo Leo)

Agora mais velho, novamente com o São Francisco do Zoo

Mais velho ainda, com o São Francisco do Zoo

Natália encarando um burgão maior que ela

Cobra

Jacarés

De batom

Emanoelle posando do lado da lixeira em forma de arara azul

Novamente com o elefante

Nós diante do orelhão onça

Com o macaco Tião (in memoriam)

Michelle disfarçada de lixeira na Quinta da Boa Vista

Nós somos a arca. Eu sou o Noé.

Turma reunida num pseudo-piquenique

Recitando poemas na Quinta

Nôla no Palácio da Quinta da Boa Vista

Diante do esqueleto de preguiça gigante no museu da Quinta

Nôla na Quinta da Boa Vista

Na Quinta da Boa Vista

Com a tartaruga marinha

Diante do palácio imperial

Diante da bilheteria do Rio Zoo

Diante do Zoológico

Nô e o capivarafone

Com a clássica pantera de bronze da Quinta

Trenzinho da QuintaEsqueleto de baleia no museu da quinta

Dentro da cerâmica indígena no museu da quinta

Dinossauro!

O Jardim dos Sentidos

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

à Natália (eterno fetim)

Não podia dizer se a cegueira era branca ou negra, pois nascera cego. Não conhecia cor: fosse rosa, azul, vermelho, verde. Conhecia apenas os sons, os cheiros, os gostos, as texturas – isso conhecia bem, melhor que você, eu, melhor que a avó até. Por sinal, sua avó, já não tinha lá os sentidos tão bons – com exceção do sexto. Olfato falho, audição ruim, paladar escasso, tato duvidoso, só a vista que era melhor que a dele, mas isso não queria dizer que enxergasse bem. Enxergava o suficiente para sentar o neto no colo, na frente da tevê, e narrar-lhe tudo que se passava. Ele se divertia com as narrações engraçadas da avó que transformava qualquer filme em comédia, ria com tanta incoerência entre a descrição das cenas e a fala das personagens. Mais que sentir prazer com os filmes, gostava de ouvir-lhe a voz frágil e escassa, de apalpar-lhe as peles geladas e moles, de sentir aquele perfume de jasmins que só sua avó possuía.

 Não viu o enterro da velha, como nunca vira nada na vida. Apenas sentiu-lhe a carne fria e dura e o cheiro de jasmins. Os filmes passavam a ser apenas a fala das personagens. Já não havia colo, não havia braços para apalpar, não havia a voz mansa e suave da avó. Havia apenas uma solidão comprida e vagarosa que se espraiava pela casa. Havia um silêncio quase onipresente apenas quebrado pela voz do Charles Bronson, Bruce Lee, Vivien Leigh.

Ouviu que batiam à porta. Perguntou quem era e surgiu uma voz antiga e amiga. Abriu. Abraçaram-se como amigos que não se encontravam desde a infância. Sentaram-se no sofá e compartilharam histórias antigas e recentes, felizes e tristes, aquelas mais verdadeiras e as mentiras que se inventa só para ter o que contar. O visitante percebeu-o triste, amarelado, reparou-lhe as imensas barbas por fazer, os cabelos desarrumados. Foi então que soube da avó, do silêncio, da solidão e de como a vida era feita só de vozes esparsas, sem roteiro algum. Disse-lhe que precisava sair, sentir o sol, ouvir os pássaros e todas estas coisas que se diz a um enfermo quando se quer animá-lo.

Chegaram ao Jardim Botânico junto com a tarde. Não podia vê-lo, mas tampouco precisava. Sua pele, seu nariz, sua boca, seus ouvidos, diziam-lhe tudo que estava ao redor. Tirou os chinelos para sentir melhor o chão e andou calmo como se estivesse sobre o gelo. Tentou assobiar, copiando um pássaro, mas nunca aprendera, apenas saía-lhe um assopro engraçado. O sol deixava-lhe a testa quentinha que logo depois era esfriada numa fonte ruidosa. O amigo estendeu-lhe a mão e disse que o levaria às flores. Andaram, trôpegos, sentindo grama, pedras e insetos. Em sua ausência de imagens, esticou as mãos e tocou as pétalas que estavam à sua frente. Sentiu a flor frágil como um bebê ou como um velho muito velho. Queria saber como era, como seria ver o mundo e como seria ver seu próprio rosto. Abaixou para cheirá-la. Era um jasmim. Estava, novamente, diante de sua avó.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2011.

Crônica Falada 11: Jardim Botânico

Que beleza gravar uma Crônica Falada no Jardim Botânico, desfrutando das prantinha e da paisage. Sob a sombra, aproveitei para filosofar sobre piqueniques, a natureza e o vegetarianismo.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2011