Arquivo do mês: setembro 2009

Zoológico ou floresta?

Há que se tomar uma van e segue-se por uma estrada cercada de floresta. Parauapebas e Carajás são ligadas por um percurso verde que dura meia hora. Impossível ir a pé, não há calçada. Fui à busca de um dos únicos pontos de lazer da região: o zoológico. Curioso é um zoológico no meio da floresta: passa-nos a impressão que nós é que estamos a ser espreitados pelos bichos. O espaço é imenso e há que dividi-lo com formigas, borboletas, muitos mosquitos e cigarras. As cigarras por aqui cantam de dia, de noite, de madrugada, não há hora pra música, toda hora é música. E, toda hora, a interrogação é “quem olha?”, nós a eles ou ele a nós? E por que a estranheza? Não estamos nós a ser vigiados todo o tempo? Não estamos a ter nossa vida vasculhada, invadida, vista? E não buscamos ser vistos? Vivemos como animais num zoológico de um Deus ou de um ser que se pretende Deus. Vivemos num zoológico, assim como eles, um zoológico que já não sabemos mais se é zoológico ou se é floresta.

Antunes – Canaã dos Carajás, 28 de setembro de 2009

A anta está solta?

A anta está solta?

Porcarias

Porcarias

Macacadas

Macacadas

Em Carajás nem a fria madrugada faz a cigarra parar de cantar

Em Carajás, nem a fria madrugada faz a cigarra parar de cantar

A parábola do ladrão

São as fotos, os teus olhos, leitor. Se não fossem elas, não me acreditarias. Passo a contar, então, como tudo se deu:

Mal saí do hotel e vi a multidão, sequer sabia que em Parauapebas vivia tanta gente. Pensei: assembléia popular, festa da padroeira, fim do mundo… era um povo reunido que cochichava sobre sabia lá o que. Fui tentando juntar as vozes: uns diziam dum tiro, outros duma moto. Concluí: ou alguém morreu de tiro ou alguém morreu de acidente de moto, estão todos ali a rodear o corpo. Corpo estendido no chão em cidade grande já é quase ponto turístico, em cidade pequena então… Fui lá ver, passei pela multidão: cença, com sua permissão, tenquiu. Cheguei e vi: era um sujeito sentado no chão com cara de tá bom, eu roubei. Aí, reconstituí o fato: o cabra tentou roubar a moto, a polícia chegou e deu tiro pro alto. Pronto, tava pego. Do lado dele, tavam dois fardados: um com cara de bonzim e outro com cara de mau. O com cara de mau falava: todo mundo aqui tinha que te dar muita porrada pra cê aprender. O polícia com cara de bom, era um irmãozim da Bléia e dizia pr’outro: pare com isso, o castigo cabe a Deus. E ficaram nessa dúvida: se leva o ladrão ou se lhe dá uns cascudos antes? E o povo a gritar: crucifica-o! Afinal, é a moto o transporte mais comum de Parauapebas e a prática não podia virar costumeira. Foi quando o irmãozim da Bléia teve um estalo de idéia, se alembrou do que aprendeu dada vez na igreja e tomou a frente da multidão: Irmãos, estamos aqui diante de uma pessoa que errou, é bem verdade… (fez-se silêncio), mas queria lembrar vocês de uma coisa (a multidão, furiosa, catava pedras e paralelepípedos do chão), aquele, meus irmãos, aquele que nunca roubou uma moto que atire a primeira pedra. Dita as palavras assim, arrumadas nesta ordem, começou a enxurrada, que nem chuva de aerólitos, todo mundo a tacar pedra no cabra. Os policiais tomaram os braços do sujeito, lhe meteram no carro e saíram em disparada. E o policial da Bléia pensou: onde foi que errei? – esta parte final, leitor, já não posso provar, pois, nem eu, lembro mais direito. Corri na hora das pedradas e não pude fotografar, aí descobri que as fotos, além dos teus olhos, são os inibidores da minha memória que vai além quando elas não estão.

Antunes – Canaã dos Carajás, 28 de setembro de 2009

Povo se junta: assembléia popular? festa da padroeira? fim do mundo?...

Povo se junta: assembléia popular? festa da padroeira? fim do mundo?...

É o Tripa Seca de Parauapebas.

É o Tripa Seca de Parauapebas.

O Hotel de Parauapebas

Há poucos dias atrás, eu nem sabia que existia um lugar com o nome de Parauapebas, agora, eu já sei até que Parauapebas tem um hotel: chama-se Hotel Carajás. É nele que estou hospedado neste momento. De trás do hotel, próximo à piscina, pode-se ver um rio. Quando mergulhamos nas águas pscinares imaginamos que estamos mergulhando em águas fluviais, se fecharmos bem os olhos acreditamos até que estamos dentro do rio. Bom, isso é o que eu acho, pois até agora não me arrisquei a entrar na piscina, muito menos no rio. Como a floresta fica bem atrás, é normal que sejamos visitados o tempo inteiro por mariposas, borboletas e uns insetos que eu nunca tinha visto na minha vida. Outro dia, durante o café, um dos hóspedes do hotel, sem saber, desfilava prum lado e pr’outro com uma borboleta presa na camisa, tomou o café inteiro na companhia dela, sem saber, uma espécie de companhia desacompanhada.

Quando cheguei por aqui estava tão cansado da viagem, que um dos objetos que primeiro tive contato foi com a cama, dormi às cinco e pouco da tarde para acordar às cinco e pouco da manhã. O quarto é simples, mas prático. A internet funciona bem (funcionava, quando fui postar esta mensagem ela parou e ficou mais de um dia sem funcionar), o que é fundamental nestas viagens. Passa-se uma sensação de um certo enclausuramento, pois a única janela do quarto dá para o corredor, ou seja, abri-la significa viver um big brother nortista, passar o dia inteiro sendo observado em seu quarto por pessoas que transitam pelo hotel. Um grande benefício comum nos hotéis: há chuveiro quente. Um grande prejuízo típico deste: ele não esquenta direito.

Voltando ao local de café da manhã, foi ali que, sem ter jantado no dia anterior, fiz minha primeira refeição em Parauapebas, anote para não perder o rumo: tapioca, panqueca, pizza, risole, coxinha, enroladinho de salsicha, empada, pastel de forno, bolo e uma vitamina de cajá com leite. Isso, vitamina de cajá… e todo dia é assim: pastel, bolo doce, bolo salgado, pudim, pirão e vitamina de tudo: leite com murici, cajá, abacate e manga! Sim, leite com manga é prática no hotel e é bom, garanto. As comidas ficam postas desde as seis da manhã e ficam ali, às moscas, literalmente e não só: ficam às mariposas e às formigas também, que parecem apreciar muito aquela comidinha puxada ao sal e gelada, tudo aqui é gelado, talvez para compensar o calor. É gelado, mas é bom.

No hall do hotel encontram-se propagandas de restaurantes e vendas locais, o jornal local O GUARDIÃO, que sai quinzenalmente. Há também, ali, uma fundamental porta de vidro, o ponto que mais me interessa no hotel. Ela é que nos apresenta o mundo misterioso que é Parauapebas, que nos deixa ir por suas ruas estreitas e nos liberta para a curiosidade. Ela, também, é que nos recebe na noite, cansados do trabalho para cair na obviedade do quarto e descansar do novo. É a porta o que mais me interessa: leva-me ao mistério e me protege dele.

Antunes, Carajás/Parauapebas, 25 e 26 de setembro de 2009

O Hotel Carajás em Parauapebas

O Hotel Carajás em Parauapebas

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

A ducha!

A ducha!

As janelas que dão para o corredor.

As janelas que dão para o corredor.

Visões de Lázaro

Adonias Filho cumpre a pena por ser um grande escritor: o esquecimento. É, para mim, sem exageros, um dos maiores prosistas de terras brasileiras. Seu romance genial chama-se Memórias de Lázaro, o protagonista: Alexandre. Vieram à minha memória estas Memórias de Lázaro e vi com os olhos de Alexandre ao voar por sobre a Amazônia. Eis que no miolo do livro o protagonista fugitivo entra numa mata infinita, labiríntica, tenebrosa, enlouquece-se de verde. Foi isto que passei ao interiorizar-me no Pará: uma perturbação verde imensurável, pavor de árvores. Espreitei rios monstruosos, também esverdeados. Cegueira verde, não mais a escura, tampouco a branca de Saramago. Verde é a cor da vertigem e parece que são as copas das árvores que sustentam o pequeno avião que treme como os galhos e voa como as folhas. Até as nuvens são verdes por aqui. Ao aterrissar em meio à floresta, pode tomar-se um taxi que se aventura pela estrada cercada por paredes de árvores. Não há fuga possível, na Amazônia as árvores tramam suas raízes em nossos olhos.

Antunes – Carajás, 24 de setembro de 2009.

Visão do avião sobre a floresta.

Visão do avião sobre a floresta.

Ilhas dentro de um rio.

Ilhas dentro de um rio.

Avião aterrissando na floresta.

Avião aterrissando na floresta.

Vista do hotel.

Vista do hotel.

As árvores sustentam o céu.

As árvores sustentam o céu.

Verdes paredes de Carajás.

Verdes paredes de Carajás.

Belém, um pomar

Quando voltei para o Rio de Janeiro da viagem de São José do Rio Preto levou-me pra casa um taxista que defendeu uma curiosa tese: Sabe toda essa área aqui da Glória, do Flamengo?…  essa região aqui do aterro… pois então, toda ela deveria ser um pomar, imagine que bonito, as famílias passeando num lugar arborizado, pegando frutas, comendo, ia ser outra coisa isso aqui. Dias depois, fui a Belém e me lembrei do taxista: toda a cidade está repleta de mangueiras. Andando por ali, encontramos mangas mais que amadurecidas caídas pela calçada que servem de diversão para os mosquitos. Os mendigos, vários em Belém, também são apreciadores das mangueiras. É a solução econômico-social pra fome!, dizem alguns. Outros acham que as mangueiras são quase humanas: elas têm vida também, como nós, e são centenárias… Há, ainda, aqueles que evocam as mangas como patrimônio histórico: sabe há quanto tempo essas mangueiras estão aí? Não? Nem eu! São antigas demais, rapaz, são parte da nossa história. Como dizem, nem Cristo é unânime, então não podem ser as mangueiras: algumas pessoas simplesmente querem arrancá-las desde a raiz, odeiam mangas, tornaram-se alérgicas, deixaram de consumi-las, não podem sequer vê-las, tampouco respira-las. Por quê? Os motivos são muitos: ingênuas mangas levaram a senhora da Nazaré, nº52 , para o hospital após terem caído sobre a sua cabeça; o Pinscher de Fátima, que com Deus esteja, teve seu caminho interrompido por uma manga; e quantos carros já não foram sujos, amassados, quebrados por causa das mangas? Parecerá mentira e não acreditará, mas, ainda assim, ousarei falar: há, em Belém, um seguro feito pra proteger os carros contra as mangadas. Ou seja, feito o seguro você poderá estacionar, sem medo, à sombra duma frondosa árvore. Concluo, então, embasado na experiência do taxista: quando sonhamos com algo, em algum lugar torna-se real. Só não sei se ele gostaria de estacionar seu taxi sob alguma mangueira de Belém. Talvez seja melhor que os sonhos sejam sonhos e que a realidade seja realidade.

Antunes – Carajás, 23 de setembro de 2009.

Ver o peso

Como fosse um cenário de Moby Dick, Popeye ou dos Velhos Marinheiros de Jorge Amado. Navego entre os marujos, pelos rios de caldo de peixe que escorrem das bancadas. Vejo pousar sobre um barco o urubu que seguira, atrás está o mercado Ver o peso. Homens, urubus, barcos, peixes sem diferenciar-se, são um. Ali, todos são um pouco homens, urubus, barcos e peixes: todos conhecem a dor, a carniça, os rios navegáveis, o anzol… são barcos humanos, peixes urubus. Convidado pelo mistério, entro. Vejo multidões de peixeiros que estripam peixes imensos, exibem-nos para os compradores. O cheiro podre não afasta a fome: atiça-a. Mareado, como um inexperiente no mar, estômago embrulhado, saio do convés para perder-me entre as curvas, traços e cores marajoaras: são os artesanatos: suas formas arredondadas misturam o técnico com o divino, são jarros abençoados a marrons, assinalados com verde, enfeitados ao vermelho. Há calor e o rio deixa o ambiente mais úmido, parece que se sua dobrado. Peço um suco qualquer, um que a senhora ache que represente o Pará, não serve de cupuaçu, algo que não seja tão conhecido. O bacuri. Olho a foto do fruto: lembra um rústico abacate. Seu suco parece uma massa de pão refrescante, é bom, mas é desconfortável nos primeiros instantes. Gelado, mata o calor. Denso, mata a fome. Acaba o bacuri, recomeço a caminhada como se fosse, agora, um Simbad. Passo por gaiolas de animais: coelhos, frangos, patos. Encontro figuras que carregam o peso de típica: as descascadoras de castanha. Sentam-se em pobres bancos, facas às mãos e a cada segundo se movimentam fatais como os relógios. Passam o dia a descascar a castanha do Pará. Quem queira, descascam na hora. Não cobram barato como no mercado de Sergipe, já sabem de sua fama, já sabem que venderão, já sabem que compraremos. Compro: 5 Reais, meio litro de castanha. Os rios me chamam, agora os de suor, há o encontro das águas com mares de óleo e gordura que escorrem nas pias dos restaurantes. Vou até o taxi, pego-o, já não sou mais um marinheiro, há quem me conduza, sou só um passageiro, um mero turista.

Antunes – Carajás, 22 de setembro de 2009.

Urubus sobrevoam Belém na região do Ver o peso.

Urubus sobrevoam Belém na região do Ver o peso.

Urubu passeia como gente.

Urubu passeia como gente.

Barcos na frente do Ver o peso, urubu aterrissando.

Barcos na frente do Ver o peso, urubu aterrissando.

Peixeiro: estripador de peixes.

Peixeiro: estripador de peixes.

As descascadoras de castanhas.

As descascadoras de castanhas.

Batatinha: o rei da mistura.

Batatinha: o rei da mistura.

Madrugadoras avenidas de Belém

Mal dormi em Belém. Mais importante era conhecer aquela cidade em que passaria menos de um dia. Levantei-me às 4:30 da manhã. Sorte: logo ao descer consegui um mapa da cidade na recepção do estranho hotel. Era ainda madrugada e eu já caminhava pelas ruas. Saí junto com o sol para acordarmos as avenidas. Segui pela Nazaré, fazendo o caminho inverso do Círio. Cheguei ao Teatro da Paz, ainda havia penumbras. Desci pelas ruas, refazendo o caminho e fui ter na Praça Batista Campos, imenso viveiro. Suas aves cantam estridentemente, são não mais cantoras, são aves gritantes, ouve-se um som similar quando se adentra o zoológico da Quinta da Boa Vista. Continuo meu percurso, driblo os mendigos, os papelões, as sujeiras. Belém tem todos os males de uma cidade grande e talvez não tenha os benefícios de uma. Chego à Basílica de Nazaré, requinte do destino: tocam os sinos, são sete horas. Começa a missa, assisto seu início, tiro fotos. Volto às ruas, aos paralelepípedos, às poças de urina, ao sol. Passo pelo shopping Iguatemi  e caminho até a Igreja da Sé. Abençoado, toca novamente o sino, são 8h: as casas são brancas, a igreja é branca, há flores que não são brancas. É um bonito lugar, dali sai o Círio de Nazaré a caminhar até a Basílica de Nazaré. Contam-me histórias: em dia de procissão às duas horas da manhã já há gente na rua a segurar a corda que se estende até a Santa, ocorrem desmaios, desentendimentos, choros… sigo, sem chorar. Vejo que o céu está tomado por urubus, faço uma pausa no forte e, novamente , sigo. Sigo os urubus, até que um deles pousa sobre um barco. Chegara ao Ver o Peso.

Antunes – Parauapebas, 21 de setembro de 2009.

O mapa.

O mapa.

O Teatro da Paz, ainda de madrugada

O Teatro da Paz, ainda de madrugada

Praça Batista Campos

Praça Batista Campos, morada de pássaros.

Basílica de Nazaré, onde chega o Círio.

Basílica de Nazaré, onde chega o Círio.

Igreja da Sé, de onde sai o Círio.

Igreja da Sé, de onde sai o Círio.